Bioquímica Clínica On Line

20 de maio de 2012

Hipotireoidismo subclínico em idosos

Filed under: Outros Temas Análises Clínicas — Admin @ 11:03

 

Hipotireoidismo subclínico protege idosos

Hipotireoidismo subclínico e mobilidade funcional em idosos1 [Link para Abstract].

Fator de impacto da revista (Archives of Internal Medicine): 9,110

Contexto Clínico

A questão das doenças tireoidianas subclínicas, particularmente o hipotireoidismo subclínico, é controversa. Alguns estudos mostram que o hipotireoidismo subclínico está associado com maior risco de doenças cardiovasculares (aumento do colesterol LDL, hipertensão arterial), pior qualidade de vida, distúrbios cognitivos, sintomas depressivos e sintomas osteomusculares inespecíficos. Outros estudos, entretanto, não conseguiram demonstrar estas associações. Quando avaliamos a qualidade dos referidos estudos observamos que os estudos que não conseguiram demonstrar que o hipotireoidismo é um estado patológico com consequências clínicas adversas são, em geral, de melhor qualidade (são de base populacional, as amostras são representativas e aleatórias, dentre outras características de qualidade). Já os estudos que demonstram associação patológica são, em geral, de pior qualidade (amostras de conveniência com nítido viés de seleção). A controvérsia em relação ao hipotireoidismo subclínico ocorre também nos idosos, embora alguns estudos tenham mostrado que a presença de hipotireoidismo subclínico em idosos é protetora. Por último, devemos lembrar que existe uma forte influência da indústria farmacêutica, no sentido de financiar pesquisadores e estudos que “comprovem” a associação patológica do hipotireoidismo subclínico. O presente estudo teve como objetivo comparar a mobilidade funcional de idosos de 70 a 79 anos de acordo com a sua função tireoidiana.

O Estudo

Trata-se de um estudo observacional, longitudinal (coorte), em que 2290 idosos que tiveram o TSH medido, e que tinham capacidade de andar 20 metros sem ajuda e não estavam tomando medicações para tireóide foram acompanhados por 2 anos. Os participantes foram selecionados de um estudo de coorte birracial chamado Health ABC (Health, Aging, and Body Composition study) no seu segundo ano de seguimento.. As medidas de mobilidade funcional incluíram medidas auto-relatadas de mobilidade (questionário) e medidas diretas – performance (velocidade de marcha habitual e rápida e resistência ao caminhar). Hipotireoidismo subclínico foi classificado como TSH = 4,5 mUI/L e T4 livre normal. Hipotireoidismo subclínico leve foi classificado como TSH entre 4,5 e 7 mUI/L e moderado como TSH = 7 e = 20 mUI/L.

Resultados

Nas análises ajustadas por idade e sexo, o grupo com hipotireoidismo subclínico leve (comparado ao grupo eutireoidiano) demonstrou uma melhor mobilidade (velocidade média usual e rápida maior – 1,20 m/s vs 1,15 m/s e 1,65 m/s vs 1,56 m/s, respectivamente; p< 0,001), apresentou melhor condicionamento cardiorrespiratório (39,2% vs 28,0%; p<0,001) e melhor facilidade relatada para caminhar (44,7% vs 36,5%; p<0,001). Após 2 anos, os indivíduos com hipotireoidismo subclínico apresentaram um declínio funcional semelhante ao grupo eutireoidiano, mantendo, entretanto, sua vantagem funcional. Os indivíduos com hipotireoidismo subclínico moderado apresentaram uma mobilidade funcional de base semelhante ao grupo eutireoideano, o mesmo ocorrendo com o declínio funcional após 2 anos. Assim, os autores concluem que, em geral, idosos ativos entre 70 e 79 anos com hipotireoidismo subclínico não apresentam risco aumentado de problemas de mobilidade, e aqueles com elevações leves de TSH (hipotireoidismo subclínico leve) apresentam até mesmo uma vantagem funcional.

Aplicações para a Prática Clínica

Estudo bem feito, com uma amostra de base populacional, sorteada aleatoriamente, com menor risco de viés de seleção. Como um fator limitante do estudo encontra-se o fato de que os achados se baseiam em uma única medida de TSH. Sabemos que existem variações em medidas laboratoriais, o fenômeno estatístico da regressão à média e o fenômeno biológico das variações transitórias de TSH, fatos que podem não refletir verdadeiros casos de hipotireoidismo subclínico. Uma outra crítica que poderia ser feita, mas que na opinião destes editores não influencia a existência de uma associação (pode, sim é tê-la reduzido), é o fato de o T4L não ter sido dosado nos pacientes com hipotireoidismo subclínico leve (TSH entre 4,5 e 7,0 mUI/L). Em nossa opinião, esta potencial subestimação da existência de hipotireoidismo franco neste subgrupo de pacientes torna ainda mais robusto o achado de que pacientes com TSH entre 4,5 e 7,0 têm uma vantagem funcional em relação aos eutireoidianos. Esta crítica, além de outras considerações infundadas, é feita no editorial que acompanha o artigo2. Este editorial será comentado em mais detalhes nas próximas semanas. Os dados deste estudo vêm se somar a alguns outros dados da literatura de boa qualidade, mostrando que, possivelmente, a “entidade” hipotireoidismo subclínico leve não deva ser considerada como patológica. Taxar indivíduos com aumentos leves de TSH de doentes, como muitos pesquisadores gostariam, é uma forma de medicalização social que deve ser combatida com boas evidências científicas.

Bibliografia

1. Simonsick EM, Newman AB, Ferrucci L, Satterfield S, Harris TB, Rodondi N, Bauer DC; for the Health ABC Study. Subclinical Hypothyroidism and Functional Mobility in Older Adults. Arch Intern Med. 2009;169(21):2011-2017.

2. Klubo-Gwiezdzinska J, Wartofsky L. Thyrotropin Blood Levels, Subclinical Hypothyroidism, and the Elderly Patient. Arch Intern Med. 2009;169(21):1949-1951.

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