Bioquímica Clínica On Line

2 de agosto de 2010

Diagnóstico laboratorial da fibrose cística

A fibrose cística (FC), ou mucoviscidose, é uma doença geneticamente determinada decorrente de comprometimento da função da proteína CFTR (de cystic fibrosis transmembrane regulator), envolvida com o transporte transmembrana de cloro e bicarbonato. O gene CFTR foi identificado em 1989 e mais de 1.000 diferentes mutações que ocasionam alteração em seu funcionamento já foram até o presente identicadas (vide mais informações em http://www.genet.sickkids.on.ca/cftr/). Uma delas, conhecida como delta F508 (por levar a deleção do aminoácido fenilalanina na posição 508), é encontrada em 70% dos cromossomos dos caucasóides com FC. Algumas outras mutações são encontradas de forma recorrente em determinadas populações, mas muitas delas são ditas privadas, ou seja, observadas até o momento em uma única família.

A FC é uma doença freqüente na população caucasóide, ocorrendo em um em cada 2.200 nascidos vivos. O defeito na proteína CFTR leva a produção na árvore brônquica de secreção espessa, mucóide, que compromete a função respiratória e favorece a colonização da árvore respiratória por bactérias Gram negativas como Pseudomonas aeroginosa. A presença dessas bactérias agrava o processo inflamatório pulmonar, contribuindo para a insuficiência pulmonar crônica. O outro sintoma freqüente é a síndrome de mal-absorção intestinal, que se caracteriza por esteatorréia e por déficit de ganho pondo-estatural. Ela decorre da produção de secreção pancreática mais espessa, que leva a formação de “plugs” que impedem a liberação do suco pancreático no intestino. Outros sintomas que podem ser observados na FC são diabetes, decorrente da fibrose do pâncreas e destruição das células e esterelidade, observado em quase todos os pacientes. No homem, é freqüente a ocorrência de ausência bilateral de vas deferens.

É possível a detecção da FC logo após o nascimento, em fase pré-sintomática, por meio da triagem neonatal (teste do pezinho), na qual se dosa a tripsina-imune reativa. Um teste anormal deve sempre ser confirmado pela repetição do exame ou ainda pela busca mutação mais freqüente na FC, a delta F508. Na maior parte das vezes, no entanto, a suspeita de fibrose cística é aventada em lactente ou criança que apresenta síndrome de mal-absorção e/ou pneumopatia de repetição. Nessa situação, o teste recomendado é a dosagem do cloro no suor, que se mostra elevado na FC. Esse teste pode ser feito em qualquer idade e é considerado o padrão-ouro para o diagnóstico da FC. A dosagem de tripsina nas fezes pode ser muito baixa em indivíduos com fibrose cística, mas esse teste é considerado de baixa sensibilidade e especificidade para essa condição. O seqüenciamento completo do gene CFTR não se acha disponível para fins diagnósticos, porém a busca das mutações mais freqüentes é um método eficiente de se realizar o diagnóstico molecular da FC, sendo capaz de detectar até 90% das mutações responsáveis pela doença, na dependência do grupo étnico. Esse exame está disponível na prática clínica. O quadro abaixo faz a comparação dos principais métodos para o diagnóstico de FC.

Exame

Indicações

Comentários

Dosagem de tripsina Imune reativa no sangue

Triagem neonatal universal

Não pode ser feita após o 3° mês de vida

Dosagem de cloro no suor

Diagnóstico de casos clinicamente suspeitos

Padrão ouro para o diagnóstico de FC

Análise mutacional

Detecção da alteração do DNA quando bioquímica e clínica são compatíveis.

Procura detectar as mutações mais freqüentes. Detecta até 90% das mutações.

Dosagem de tripsina nas fezes

Investigação de pacientes com síndrome de má-absorção

Método pouco sensível e reprodutível.

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